Se você acha que a vida dos outros é sempre melhor que a sua, talvez devesse tomar cuidado: esse é o primeiro sinal de inveja crônica. Tudo começa através de uma ilusão que criamos, uma fantasia que diz que nossa vida é mais difícil que todas as outras e que todos ao nosso redor estão felizes e sorrindo, enquanto estamos tristes e sofrendo. Porém, esse cenário imaginário carece de realidade e principalmente ignora um fato crucial: todos sofrem em algum grau.
O que diferencia um soldado dormindo em uma caverna no meio da guerra e sentindo a pressão de ser morto a cada minuto para um civil normal não é necessariamente o cérebro, mas o contexto ao qual aquele cérebro teve que se adaptar. A mente humana não apenas conta histórias, ela possui o incrível poder de se adaptar a realidade quando entendemos que aquela é nossa realidade. Quando a luta some, o cérebro começa a gastar energia pensando em como superar os desafios diários, e não questionando “por que eu?”
Existe um motivo pelo qual a maioria de nós e viciado em séries, animes ou filmes: é porque gostaríamos que nossa vida fosse diferente. Quando assistimos um filme de romance, não ficamos animados porque achamos a história boa, ficamos animados porque no fundo, gostaríamos que acontecesse conosco. Como a realidade costuma não cooperar com nossos desejos, nós fugimos para a fantasia e passamos a habitar um mundo no qual somos incríveis.
Na psicologia isso tem um nome: devaneios excessivos. É um fenômeno psicológico de fuga, a vítima desse transtorno costuma criar cenários imaginários que nunca aconteceram ou vão acontecer. É como escrever um filme na própria mente e alimentar uma falsa esperança interna de que um dia esse filme vai acontecer, mas nunca acontece.
Então, quando nossos desejos não são atendidos pela realidade, e imaginamos que o desejo dos outros sim, nós nos rebelamos. Sentimos raiva não porque estamos passando por algo difícil ou ruim, mas porque nossos amigos não estão(ao menos assim pensamos). Se o sofrimento fosse distribuído em igual intensidade para todos nós, não seria sofrimento, seria apenas a realidade operando. Nós sofremos porque nos comparamos e acreditamos que nossa vida devia ser diferente, devia ser igual as demais vidas e que não devíamos passar por injustiças.
Eu compreendo a inveja melhor do que a maioria das pessoas, visto que fui dominado por ela a vida inteira. Mesmo desfrutando de boas condições financeiras e saúde física pela maior parte da minha vida, eu sempre achava motivos para invejar os mais afortunados. Sempre contava a mesma história para mim mesmo, que fulano era mais bonito, ciclano era mais rico e beltrano era mais “normal”.
No fundo, isso me deixava mais calmo. Por que quando você acredita que seus problemas são especiais e que ninguém mais os entende, é fácil usá-los como justificativa para não mudar. E nosso cérebro começa a se viciar em fugas. Sem que percebamos, acabamos criando um ecossistema de derrota dentro de nossa própria mente.
Começamos a alimentar crenças negativas e essas crenças negativas alimentam comportamentos de fuga. Então começamos a comer demais, ver pornografia, jogar demais, assistir séries demais e fantasiar demais. Começamos a fazer qualquer coisa para sentir prazer e não pensar sobre nossa situação. Nosso cérebro literalmente se torna especialista em fugir da realidade e isso se incorpora a nossa identidade.
Por isso a mudança se torna tão difícil. Chega um momento no qual fugir se torna parte de quem você é e seu cérebro já age no automático. Na maioria das vezes, você não fura a dieta porque é preguiçoso ou incompetente, mas porque sua identidade está construída em cima de fugas e isso não é fraqueza, é treinamento. Do mesmo modo que podemos ser treinados para fugir no menor sinal de dificuldades também podemos ser treinados para enfrentar problemas.
A vida que costumamos invejar nos outros é recortada, porque só vemos os sucessos. Quando olhamos para um jovem “gênio” que passou em um concurso público aos 19 anos e ganha vinte mil por mês, imaginamos que ele teve sorte de nascer inteligente. Contudo, não vemos os bastidores, não vemos que o jovem estudava oito horas por dia, não tinha vida social, estava constantemente cansado, confuso e estressado. Nós só vemos aquilo que gostamos de ver e invejar, porque é gostoso pensar que alguém teve sorte e conseguiu algo sem se esforçar.
Quando atribuímos o sucesso alheio a sorte, nós nos anestesiamos do esforço. Isso nos dá uma excelente justificativa. Não estou falando que meritocracia é uma realidade incontestável e que todos jogam o mesmo jogo. O que estou dizendo é que o hábito de julgar a vida dos demais como sendo resultado de pura sorte nos serve como anestésico para não tentar. Porque se acreditarmos que tudo na vida se deve a sorte, podemos não nos esforçar e evitar a dor.
Mas e para aqueles que nasceram sem sorte e mesmo assim, venceram na vida? E para aqueles que se tornaram lendas? Um claro exemplo é o tão falado atualmente Miyamoto Musashi, o lendário espadachim japonês. Após estudar profundamente sua vida, só pude chegar a uma conclusão: ele teve azar. Miyamoto Musashi perdeu os pais aos 13 anos e foi jogado no mundo, na época do Japão feudal. Ele não tinha comida, teto ou conforto garantidos. Foi uma vida de sofrimento desde do inicio.
O que o transformou em lenda é que ele estava tão ocupado em sobreviver e impulsionar a própria vida que não tinha tempo para invejar as vidas alheias, ou mesmo para fugas. Quando sua sobrevivência depende do seu desempenho como espadachim, você não tem tempo para se lamentar ou invejar a vida alheia, isso não fará sua espada cortar mais ou te garantirá a sobrevivência no próximo duelo. Musashi sabia que a única maneira de continuar vivo e ter a chance de prosperar era se continuasse se aperfeiçoando.
A dor e o sofrimento se tornaram a sua realidade. Enquanto o homem moderno reclama e amaldiçoa o mundo pois tem que acordar e trabalhar por um salário mínimo, Musashi acordava com fome e frio todos os dias. Dormindo em cavernas, ele não tinha comida garantida, conforto e constantemente estava exposto aos ricos da natureza e de outros seres humanos. O sofrimento e a possibilidade de sofrer mais estavam presentes no dia a da de Musashi e isso criou uma resiliência que o homem moderno não conhece.
Quando seu cérebro é submetido a uma realidade desconfortável, ele se adapta e evolui. O que diferencia você do lendário samurai é apenas uma coisa: apego ao conforto. Todos nós, da época moderna, somos brutalmente apegados ao conforto. Não sabemos como lidar com uma vida de dificuldades porque passamos tempo demais no conforto experimentado ou invejando o conforto dos outros e não nos aperfeiçoamos.
Passamos tempo demais nos lamentando da vida que temos que não fazemos nada para mudar e esse é o problema. Musashi, em algum momento, entendeu que o desconforto e a dureza são a única forma possível de evolução. Mesmo após criar uma reputação lendária, ele não abandonou seu caminho. Musashi poderia ter terminado a vida rico e famoso, mas escolheu morrer em uma caverna, sozinho.
Musashi não era louco ou masoquista, ele só entendeu que a evolução pessoal acontece apenas em ambientes desconfortáveis. O cérebro precisa de atrito para crescer, assim como o músculo. Portanto, que passemos a invejar menos a vida alheia e nos esforçarmos mais para melhorar nossa própria vida.

